POR QUE NÃO HÁ UMA BIG FARMA BRASILEIRA?


As Bigs são empresas de ação global. Nos Estados Unidos costumam pertencer a cidadãos comuns e fundos de pensão ou de investimento, beneficiários de rendimentos sobre valor de suas ações e lucros das empresas. Na Ásia, ao Estado, grupos privados, empreendedores autônomos. Na Europa, a famílias, grupos privados, Estado, fundos de pensão ou de investimento.
Não importa o modelo. O fato é que são indústrias, comércio e serviços com atuação mundial. Atuação mundial não somente nos aspectos comerciais. Atuação mundial em pesquisa, desenvolvimento e inovação. Na área farmacêutica, representam alguns bilhões de dólares em pesquisas científicas nas mais diversas áreas associadas à saúde e medicina. Com um diferencial: além da importância financeira, econômica, uma Big farma traz independência para o país que a tem, num setor absolutamente estratégico. Nenhum país desenvolvido abre mão de ter sua Big farma.
O Brasil tem sua Big de cerveja e refrigerantes. Tem também em petróleo, minério. Talvez se possa dizer que tem de cimento, laranja processada, soja, carne. De fármacos e medicamentos, não. É curioso que não tenha, sobretudo quando se sabe das faltas e deficiências que o país apresenta na pesquisa, desenvolvimento e inovação de fármacos e medicamentos. Um país curioso, com 200 milhões de habitantes que não produz insulina, medicamento essencial para a doença que, ao lado da hipertensão, mais mata no mundo.
Dois exemplos simples. A Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas, VIGITEL, do Ministério as Saúde, diz: mais de 6,2 milhões de pessoas no Brasil acima de 18 anos declaram-se diabéticas. A coordenadoria de Política Nacional de Hipertensão e Diabetes do Ministério da Saúde acredita que esse número está bem abaixo da realidade, por falta de controle, acompanhamento e diagnóstico. Também nada fazemos com o plasma do sangue humano, depois que separamos os elementos que serão usados nas transfusões, jogando toneladas no lixo, quando poderiam ser medicamentos vitais aos brasileiros, na produção de biofármacos - 100% importados.
No entendimento dos órgãos financiadores do Brasil, cito em especial o BNDES, para haver uma Big Farma, o mais importante são paredes, patrimônio físico e o volume de recursos que a empresa venha a operar. Qualquer banqueiro dirá que é assim mesmo. Mas o BNDES é parte da política industrial brasileira que previa o setor de fármacos e medicamentos com um dos 4 pilares de projeção no mercado interno e de expansão global. O BNDES é um dos representantes oficiais da realização da Lei de Inovação.
Para o setor de fármacos e medicamentos, uma Big farma só se faria com a inclusão de inovação tecnológica e um programa de pesquisa que permita criar medicamentos novos para oferecer ao país e ao mundo. E até aqui não se estaria fazendo nada de novo, apenas tentando correr atrás do bonde, que há muito não é bonde: é trem bala. Se o país quer dotar seus 4 pilares e formadores de futuro de oportunidades globais, a hora é essa, agora, já. Não há, neste momento, alternativas visíveis para que venhamos ter uma Big Farma. As soluções que o mercado encontrou até aqui são, simplesmente, comerciais, produtos de balcão, agrupados aos montes e misturados a cosméticos, alimentos e produtos de limpeza. Se for isso que interessa e é gestado nas mentes que decidem, então ficamos por aqui.
O BNDES tentou juntar grandes empresas nacionais para criar a Big Farma. Até agora não funcionou. Por que não? Primeiro: para haver uma fusão inteligente é preciso primeiro saber se há possibilidades emocionais. Todas as grandes empresas nacionais farmacêuticas são familiares. Segundo: é necessário complementaridade de portfólio de produtos (existem pouquíssimas possibilidades nessa segunda possibilidade no Brasil - e na primeira praticamente não há).
Uma questão a mais é que o Brasil não definiu seu programa de Estado para a área de pesquisa em geral e de fármacos em particular - apesar do esforço, em especial, do Ministério da Saúde e, em particular, da Secretaria de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde. Por que o Brasil ainda não tem um programa de Estado para pesquisa em geral e fármacos em particular, se o Ministério da Saúde se empenha em ver resultados aí? Não vamos pensar que faz parte dos mistérios insondáveis, não, que é mera fantasia.
Do lado da parte decisiva para proporcionar financiamento, ainda falta entender em que estágio estão a sociedade e a economia do mundo e atentar para algo bem simples: a formação de riquezas e acumulação de capital, hoje em dia, são formadas por informação e conhecimento aplicado. Enquanto outros países tratam pesquisa e conhecimento como questões de defesa e segurança, o Brasil empresta dinheiro e financia produção de automóveis. Isto é, pensa imediatamente local, sem nenhum plano de médio e longo prazo. O trem bala da história há muito já saiu da estação, Brasil.
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